Movimento Revolucionário 8 de outubro

Movimento Revolucionário 8 de outubro


SEQUESTRO DO EMBAIXADOR


Cinco dias depois de a Junta Militar assumir o poder no lugar do adoentado Costa e Silva e endurecer ainda mais as regras do jogo político no país, militantes do MR8 e da ALN decidiram, numa audaciosa ação conjunta, sequestrar o embaixador dos EUA no Brasil. E assim, em 4 de setembro de 1969, Charles Burke Elbrick se tornaria o primeiro diplomata dos EUA a ser sequestrado em todo o mundo, e a ação seria a primeira desse tipo realizada na América do Sul. Elbrick, que substituíra John Tuthill (por sua vez, substituto de Lincoln Gordon), era um democrata liberal contrário a ditadura. Mas os EUA estavam por demais envolvidos com o regime militar brasileiro para que seu embaixador não fosse a vítima ideal. Apesar de os revolucionários quase terem pego por engano o embaixador de Portugal, que, pouco antes, passou pelo caminho normalmente percorrido pelo diplomata norte-americano, o sequestro foi bem sucedido. Elbrick acabou sendo trocado por 15 prisioneiros políticos, que no dia 6 de setembro embarcaram para o México. Além da libertação dos companheiros, os guerrilheiros conseguiram divulgar nas rádios e jornais de todo o país um manifesto contra a ditadura, o que despertou a atenção nacional e internacional para sua luta contra os militares (nesse tempo todo e qualquer tipo de mídia estavam censurados). O segmento do embaixador Burke Elbrick deflagrada uma onda de novas ações da mesma natureza e trocas de prisioneiros, como o caso da VPR entre outras.

ENTENDA CARLOS MARIGHELLA


Apesar do Partido Comunista (PCB) ter sido contrário a luta armada como forma de combater a ditadura, o avanço do regime militar fez com que vários militantes contrariassem com essa posição e pegassem em armas para combater o avanço da ditadura. Um dos primeiros a se oporem contra a determinação do PCB foi Carlos Marighella, velho militante de esquerda que participara da Intentona Comunista de 1935. Em 1967, aos 56 anos, ele fundou a ALN (Ação Libertadora Nacional) e partiu para a luta armada. Expropriou vários bancos e, na ação mais espetacular, tomou uma estação da rádio Nacional, em agosto de 1969, lendo um manifesto revolucionário (descrito acima). Inspirados pela Revolução Cubana e pelo slogan dos revolucionários de todo o mundo (criar um, dois, três, mil Vietnãs). Carlos Marighella e centenas de jovens militantes (muitos deles estudantes de classe média) aderiram à guerrilha urbana nos dois últimos anos da década de 60. Em fins de 1969, a morte de Marighella se tornara questão de honra para os grupos encarregados da repressão. Após a tortura de dois frades dominicanos que mantinham ligação com o revolucionário, os homens do delegado Sérgio Paranhos Fleury, liderados por ele mesmo, surpreenderam Marighella numa rua de um bairro chique de São Paulo, na noite de 4 de novembro de 1969. Antes que pudesse reagir, Marighella (autor de vários livros sobre guerrilha, publicados em todo o mundo) foi morto a balas. Segundo a versão oficial, ele morreu ao tentar resistir à prisão. A morte de Marighella não foi suficiente para sufocar a guerrilha, que, com o sequestro de vários diplomatas, adquiria repercussão nacional e internacional.


Histórico

O MR-8 originou-se de uma dissidência do PCB no meio universitário do Estado da Guanabara - a DI-GB, que se formou a partir de 1964, separando-se do PCB em novembro de 1966, quando das eleições legislativas realizadas naquele ano - os militantes da DI-GB, ao contrário as orientações do PCB, preconizavam o voto nulo. Em fevereiro de 1967, a DI-GB realizaria sua I Conferência, constituindo-se como organização e formulando uma linha política e um texto sobre a luta armada. Em 1967, a DI-GB viveria um processo de luta política interna, perdendo militantes para a Corrente do PCB e para os COLINA (Comando de Libertação Nacional). Mas a organização se reergueria em dezembro de 1967 com a II Conferência, definindo nova linha política. A DI-GB manteria um perfil próprio, ampliando-se consideravelmente no decorrer de 1968 quando teve um papel de destaque nas mobilizações estudantis. Em abril de 1969, a III Conferência definiria a Dissidência como "organização comunista empenhada na guerra revolucionária", datando daí sua participação em ações armadas. Em setembro de 1969, a DI teria papel dominante na concepção e realização do seqüestro do embaixador norte americano, sendo auxiliada na execução da ação por quadros da ALN (Ação Libertadora Nacional). Foi no curso desta ação que a DI adotaria o nome MR-8 com o objetivo de confundir e desmoralizar a repressão que anunciara semanas antes a destruição da mesma organização. O nome, assumido para efeitos propagantísticos, permaneceria desde então. Apesar de sucessivos golpes da repressão, em 1970, o novo MR-8 ampliou seu trabalho, estabelecendo contatos em fábricas e áreas rurais. Em 1971, dois textos: "Orientação para a prática" e "Como prosseguir", além de outros sobre experiências de trabalho político em áreas rurais e urbanas mostravam uma organização aparentemente sólida. Entretanto, em meados de 1971 e 1972, novos golpes da repressão quase liquidariam a organização obrigando sua direção a recompor no exterior o trabalho do MR-8.


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